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Água e segurança nacional: impactos socio econômicos das águas de verão

matéria publicada no site estrategia.com.br

Guilherme Barbosa Checco


Mestre em Ciência Ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente da Univerisdade de São Paulo (Procam/IEE/USP). Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2013). Pesquisador no Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS).


“Não basta ter água para ser um rio”. Esse é um lembrete de autoria de Iremar Barbosa, professor e ativista do oeste baiano, um dos tantos territórios no Brasil que ilustra a contradição estridente que vivemos neste país tropical, que abriga a maior reserva de água doce entre todos os países, mas ao mesmo tempo, enfrenta desafios do século passado em termos de acesso à água e cuidados com esse bem natural finito. Essa espécie de “delírio da abundância” da água que nossa sociedade vive precisa ser rompido. De que adianta o Brasil ter 12% da água doce e mais de 97 milhões de compatriotas (45% de nossa população) não terem coleta e tratamento de esgoto?

O lembrete de que não basta ter água para ser um rio, retratado na detalhada reportagem sobre a disputa pela água no Cerrado baiano publicada agência de jornalismo investigativo Pública, é um convite à sensibilização para o problema e decorrente ação para mudar nossa realidade. As soluções existem e estão ao nosso alcance.

Dois acontecimentos recentes dão o tom da importância de elevar o cuidado com as nossas águas para o topo da lista de prioridades: os impactos sociais e econômicos que o acesso ou a falta d’água vêm causando.

Mais um verão no Brasil e emerge novamente à luz das câmeras os casos de chuvas torrenciais, enchentes nas grandes cidades, deslizamentos nas encostas de morros, mortes e caos na vida das pessoas. Bahia, Minas Gerais e agora São Paulo. Estima-se que as fortes chuvas do final de janeiro acarretaram a morte de ao menos 24 pessoas no estado São Paulo, entre elas nove menores de idade, sendo que 660 famílias foram desalojadas O município de Franco da Rocha foi um dos mais afetados. Na Bahia a contagem de vidas perdidas também chega a 26 pessoas. Em Minas Gerais, 24 pessoas morreram, 3.992 ficaram desabrigadas, 24.610 desalojadas e 341 municípios estão em situação de emergência. Tudo isso apenas entre o último e primeiro mês dessa virada de ano.

Água em excesso ou em falta. Definitivamente, nossas sociedades ainda não aprenderam a lidar com essas variações da natureza. E tampouco consolidamos o conhecimento, já assumidos pela comunidade científico, de que nossa ação humana está impactando esses ciclos e exacerbando os extremos climáticos.

Segundo retrato da realidade. Quem acompanha o mundo da economia de perto viu que o país entrou na chamada “recessão técnica” a partir dos resultados do PIB no terceiro semestre de 2021, que caiu quase 4% quando comparado com o mesmo período do ano anterior. Um dos argumentos centrais que os analistas apresentaram foi que a falta de chuvas do segundo semestre até a primavera afetou a produção agropecuária, o principal setor que vinha puxando a economia. O próprio governo federal reconheceu o fato, a partir de uma leitura muito curiosa: “É preciso considerar que o agro sofreu um choque climático sem paralelo nos últimos tempos. É efeito da natureza.”, segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia. O que o governo e muitos ainda não entenderam é que não adianta culpar a natureza. São nossas ações que têm de mudar,

Artigo publicado na Nature, renomada revista científica, em dezembro de 2021 afirma logo em seu título que o Brasil está em crise hídrica. Os autores atestam que o país “falhou em considerar a água como um recurso essencial para a nação, o que levou o Brasil a uma longa história de má gestão”. Após destrincharem a situação brasileira e a importância desse bem natural para diversas dimensões da vida, eles propõem que a água passa a ser considerado um assunto de segurança nacional. Isso permitiria colocar essa questão como de fato uma prioridade e corresponsabilizar todos os governos da nossa federação, grande parte dos Ministérios do governo federal, os diferentes poderes da República e todos os setores econômicos. Em suma, toda a sociedade. Trata-se de uma questão de sobrevivência. Ainda no artigo há a indicação de que caso essa tomada de consciência aconteça, o Brasil poderia se tornar um “world leader in hydroclimate resilience”, elencando ações como diversificar as fontes de energia, monitoramento contínuo do solo, um planejamento prévio para enfrentar situações de seca e incorporar as projeções climáticas em nossa gestão.

Se isso é verdade, se essa de fato deve ser uma questão de segurança nacional, fica claro que esse deve ser um assunto abordado nas eleições deste ano de 2022. O que os candidatos à Presidência da República têm a dizer a respeito? Quais as propostas objetivas? E os demais candidatos aos governos estaduais e aos Legislativos nacional e estaduais?

Se nós, sociedade, não nos sensibilizarmos para essa questão e exigir propostas e ações objetivas dos governantes, seguiremos rumo ao colapso. Um primeiro passo possível é compreender que a água não é um “recurso”, mas algo vivo que compartilha conosco a mesma Terra, que também tem suas necessidades próprias para existir, e da qual somos dependentes. Não basta ser o país com a maior reserva de água doce do mundo e não cuidar desse ativo fundamental à vida e estratégico para o desenvolvimento da nação.

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